A linguagem humana é bem mais antiga do que pensávamos
Novas evidências científicas indicam que os neandertais partilhavam connosco bases genéticas da linguagem, sugerindo que a comunicação complexa pode ter surgido muito antes do Homo sapiens.

A capacidade de linguagem é uma das características mais distintivas do ser humano moderno.
Durante décadas, cientistas debateram quando e como essa habilidade surgiu e, sobretudo, se os neandertais, os nossos parentes evolutivos mais próximos, eram capazes de falar.
Um novo estudo publicado na revista Science Advances, juntamente com análises recentes divulgadas na imprensa científica, está a reformular profundamente essa questão.
O papel inesperado da genética
O estudo centra-se em regiões específicas do genoma chamadas HAQERs (Human Ancestor Quickly Evolved Regions).
Estas regiões não são genes no sentido tradicional, mas sim sequências reguladoras que funcionam como “interruptores” ou “botões de volume” que controlam a atividade de outros genes ligados à linguagem.
Apesar de representarem menos de 0,1% do genoma humano, estas regiões têm um impacto desproporcional na capacidade linguística, até centenas de vezes superior ao de outras partes do ADN.
O dado mais surpreendente é que estas estruturas genéticas não são exclusivas do Homo sapiens.
Pelo contrário, já existiam antes da separação evolutiva entre humanos modernos e neandertais, há centenas de milhares de anos.
Um estudo baseado em crianças modernas
Para chegar a estas conclusões, os investigadores analisaram dados genéticos e linguísticos de centenas de crianças.
Ao correlacionar diferenças no ADN com capacidades linguísticas individuais, conseguiram identificar quais as regiões genéticas mais relevantes para o desenvolvimento da linguagem.
Este método é particularmente importante porque permite ligar diretamente genética e comportamento, algo raro em estudos evolutivos. A partir daí, os cientistas rastrearam a origem dessas regiões no tempo evolutivo, descobrindo que são muito mais antigas do que se pensava.
A conclusão mais impactante é que os neandertais possuíam, provavelmente, a base biológica necessária para a linguagem. Ou seja, tinham a genética essencial, ainda que a complexidade cultural e cognitiva pudesse ser diferente.
Isso sugere que a capacidade para linguagem não surgiu de forma abrupta nos humanos modernos, mas sim como resultado de um processo evolutivo gradual e partilhado.
Para além do gene FOXP2
Durante anos, o gene FOXP2 foi considerado a chave da linguagem humana.
No entanto, este novo estudo mostra que ele é apenas uma peça de um sistema muito mais complexo. Em vez de um único “gene da linguagem”, existe uma rede de elementos reguladores que trabalham em conjunto para moldar essa capacidade.
Este avanço ajuda a explicar por que a linguagem é tão sofisticada e difícil de reduzir a um único fator biológico.
Evidências complementares: cultura e comportamento
Há muito que arqueólogos apontam que os neandertais exibiam comportamentos complexos, como produção de ferramentas, arte simbólica e organização social, que provavelmente exigiriam algum tipo de comunicação avançada.

Além disso, estudos anteriores sugerem que eles possuíam características anatómicas e neurológicas compatíveis com a fala, embora talvez com limitações em relação aos humanos modernos.
No seu conjunto, estas descobertas desafiam a ideia tradicional de que a linguagem é uma inovação exclusiva e recente do Homo sapiens. Em vez disso, apontam para uma origem muito mais antiga, enraizada em ancestrais comuns aos humanos e neandertais.
Isto não significa necessariamente que os neandertais falassem como nós, com gramática complexa e vocabulário rico, mas sugere que tinham capacidades comunicativas muito mais avançadas do que se pensava.
Referência do artigo:
Lucas G. Casten, Tanner Koomar, Taylor R. Thomas, Jin-Young Koh, "Ancient regulatory evolution shapes individual language abilities in present-day humans". Science Advances, 2026
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