A beleza que sufoca: como uma espécie "inofensiva" tornou-se numa ameaça para a Islândia

Como uma flor do Alasca para recuperar as terras vulcânicas da Islândia acabou por sufocar a vegetação nativa e dividir a população local. Saiba mais aqui!

A capital da Islândia, Reiquejavique.
A capital da Islândia, Reiquejavique.

Na década de 1940, a Islândia debatia-se com um grave e persistente problema ambiental: a severa erosão do seu solo.

As características areias negras da ilha, de origem vulcânica, estavam a ser implacavelmente arrastadas para o Oceano Atlântico pelas chuvas intensas e pelos ventos torrenciais.

Na tentativa de travar esta degradação, estabilizar as terras e recuperar as florestas nativas perdidas, as autoridades decidiram importar e plantar uma flor que, décadas mais tarde, se transformaria numa das maiores ameaças ecológicas ao ecossistema da ilha.

A solução vinda do Alasca

A espécie escolhida foi o tremoceiro de Nootka (Lupinus nootkatensis), uma planta herbácea originária do Alasca. Esta flor destaca-se pela sua notável capacidade de enriquecer solos áridos e pobres através do processo de fixação biológica de azoto.

Tremoceiro de nootka azuis em flor (Lupinus nootkatensis) em frente a montanhas vulcânicas, formação de nuvens. Perto de Pingeyri, Fiordes do Oeste, Islândia, Europa.
Tremoceiro de nootka azuis em flor (Lupinus nootkatensis) em frente a montanhas vulcânicas, formação de nuvens. Perto de Pingeyri, Fiordes do Oeste, Islândia, Europa.

O principal impulsionador desta ideia foi Hákon Bjarnarson, diretor dos serviços florestais da época, que ficara deslumbrado ao ver os vastos campos do estado norte-americano cobertos por estas flores púrpuras e azuladas.

Convencido da sua utilidade miraculosa, decidiu introduzi-las em solo islandês. Ao longo do tempo, o tremoceiro adaptou-se de tal forma que acabou por se converter num autêntico símbolo nacional.

As extensas planícies tingidas de violeta tornaram-se num dos grandes atrativos do país e numa das paisagens mais procuradas e fotografadas pelos turistas. Contudo, o que se ignorava na altura da sua introdução era o seu carácter altamente invasivo. O Instituto Islandês de História Natural já classificou formalmente a planta como espécie invasora. Em 2017, imagens de satélite revelaram que a flor cobria 0,3% do território da ilha.

Panorama urbano de arquitetura moderna em Reiquiavique com um campo de tremoceiros de nootka (Lupinus nootkatensis) em primeiro plano.
Panorama urbano de arquitetura moderna em Reiquiavique com um campo de tremoceiros de nootka (Lupinus nootkatensis) em primeiro plano.

Embora possa parecer uma percentagem reduzida, os cientistas preveem que a sua presença se multiplique exponencialmente, podendo vir a ocupar até uma sexta parte da superfície do país. Esta expansão desenfreada é facilitada pelas condições climáticas favoráveis e pela ausência de vegetação islandesa suficientemente robusta para travar o seu avanço, permitindo-lhe invadir, inclusivamente, áreas naturais protegidas.

O impacto na biodiversidade local

O impacto na biodiversidade tem sido preocupante. O crescimento adensado e agressivo do tremoceiro está a roubar espaço vital às espécies autóctones.

Os frágeis musgos e líquenes, típicos das paisagens islandesas e conhecidos pelo seu crescimento extremamente lento, estão a ser rapidamente sufocados e deslocados.

Esta alteração profunda na flora afeta de igual modo a fauna nativa que dela depende, como é o caso da tarambola-dourada, uma ave cuja sobrevivência está agora ameaçada.

Curiosamente, o principal objetivo da introdução da planta, combater a erosão, não foi totalmente bem-sucedido a longo prazo. Segundo o Governo islandês, 45% dos ecossistemas do país encontram-se atualmente em mau estado, um agravamento face aos 39% registados há cerca de trinta anos.

O dilema entre a conservação e a estética

Hoje em dia, os especialistas em restauro ecológico assumem que a erradicação total da planta é uma tarefa irrealista. A estratégia passa agora por tentar implementar protocolos de contenção para evitar que a praga avance para novos habitats protegidos.

No entanto, as autoridades enfrentam um obstáculo inesperado: a oposição de parte da sociedade. Fascinados pela beleza cenográfica dos campos roxos, muitos habitantes locais e turistas têm utilizado as redes sociais para tentar impedir as ações governamentais de controlo. Ao mesmo tempo, alguns especialistas continuam a defender a eficácia da flor no combate à desertificação, criando um complexo e delicado dilema ambiental.

Referência da notícia

Mateos, Ainara. (2026). En los 40, Islandia introdujo una flor para frenar la erosión del suelo; décadas más tarde, se ha convertido en una amenaza para la isla.