Equipa portuguesa instala telescópio solar no Observatório do Chile

O instrumento, desenvolvido na Universidade de Lisboa, será operado remotamente a partir de Portugal, observando a luz solar com elevada precisão.

Observatório do ESO no Paranal, no deserto do Atacama, no Chile. Foto: ESO
Observatório do ESO no Paranal, no deserto do Atacama, no Chile. Foto: ESO

Paranal Solar EXPRESSO Telescop (PoET) é o instrumento de alta precisão, parcialmente construído nos laboratórios da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que já está a ser instalado no Observatório Europeu do Sul (ESO).

Funcionando como um robô autónomo, o aparelho será operado remotamente a partir de Portugal, enviando dados de alta precisão sobre observações solares recolhidas do alto da montanha do Paranal, em pleno deserto do Atacama.

Uma equipa de 12 investigadores do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e das universidades de Lisboa e do Porto já se encontra no Chile desde o passado sábado para instalar o telescópio, apresentado como um instrumento capaz de obter um nível de detalhe inédito.

Neste momento, não existe nenhum instrumento com capacidade para obter os mesmos resultados do PoET.
Alexandre Cabral, professor da Universidade de Lisboa e investigador do Instituto de Astronomia

O expectável é que o PoET comece a recolher os primeiros dados em abril, data em que passará a observar os céus de Atacama, estudando não só as estrelas como também exoplanetas e sistemas estelares semelhantes à Terra.

Estreitar o campo de visão solar

Desenvolvido e montado com tecnologias de última geração, o telescópio distingue-se pela capacidade de selecionar a luz proveniente de áreas previamente selecionadas do Sol.

Todas as operações utilizarão um cabo de fibra ótica de aproximadamente 75 metros, permitindo ao espectrógrafo ESPRESSO acesso direto às observações realizadas pelo telescópio.

Em vez de recolher toda a luz do Sol, o PoET poderá focar a observação em manchas solares, na coroa do Sol ou em qualquer outro ponto de interesse que os astrónomos considerem relevante para as suas investigações.

Componentes do telescópio PoET desenvolvidos nos laboratórios da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Foto: ULisboa
Componentes do telescópio PoET desenvolvidos nos laboratórios da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Foto: ULisboa

A expectativa face a esta nova abordagem, direcionada exclusivamente a áreas circunscritas do Sol, é que seja especialmente eficaz para analisar outras estrelas e desenvolver métodos inovadores de deteção de exoplanetas com dimensões semelhantes às da Terra.

Os equipamentos científicos do ESO instalados no Paranal, por regra, fazem observações apenas no período noturno – mas com a chegada do PoET deverá ser aberta uma exceção para observações diurnas.

Usando o Sol como cobaia experimental, os astrofísicos vão tentar decifrar a física das estrelas. Mais do que descobrir novos exoplanetas, a equipa portuguesa espera aprofundar a informação sobre o que já existe e que não é coisa-pouca. Atualmente, são cerca de seis mil exoplanetas detetados na nossa galáxia.

Há, portanto, uma imensidão de objetos estelares já identificados e à disposição da curiosidade dos investigadores. Não importa, por isso, descobrir novos planetas. Muito mais eficaz é afunilar o campo de estudo e explorar, com maior detalhe, os corpos celestes mais parecidos com o nosso planeta, pois são os mais propensos a abrigar vida.

Operações automatizadas e de alta precisão

O PoET ficará instalado a 2.600 metros de altitude, num dos maiores observatórios de astronomia do mundo. A cúpula onde irá operar, no alto da montanha do Paranal, já está montada.

A equipa portuguesa que partiu para o Chile irá, nas semanas que se seguem, instalar todos os equipamentos construídos em Portugal e em Itália para que o telescópio possa operar de forma automatizada.

O ESO opera três observatórios no deserto do Atacama - La Silla, inaugurado em 1960, Paranal, que começou a funcionar em 1999, e Chajnantor, a operar desde 2013.

Dispensando intervenção humana, o seu funcionamento está exclusivamente dependente de parâmetros previamente programados, necessitando apenas de manutenções anuais asseguradas pela equipa do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço.

A cúpula do PoET irá receber o novo telescópio solar, que já está a ser instalado pela equipa portuguesa. Foto: ESO
A cúpula do PoET irá receber o novo telescópio solar, que já está a ser instalado pela equipa portuguesa. Foto: ESO

Os trabalhos de instalação deverão ficar concluídos a 8 de abril. Nessa altura, o Paranal Solar EXPRESSO Telescópio juntar-se-á à grande família de dezenas de telescópios do ESO, ajudando os investigadores a expandir o conhecimento sobre o universo.

Referência da notícia

Hugo Séneca. Investigadores de Ciências ULisboa arrancam no sábado rumo ao Chile para iniciar instalação de telescópio solar. Universidade de Lisboa.