Viver no "forno": a injustiça social escondida no uso do ar condicionado e o agravamento nas ilhas de calor

O paradoxo do frio: como a solução para o calor acelera o aquecimento global. Saiba mais aqui!

Aparelhos de AC aumentam a temperatura das ruas em até 1°C, e apenas 10% das famílias em países quentes os possuem.
Aparelhos de AC aumentam a temperatura das ruas em até 1°C, e apenas 10% das famílias em países quentes os possuem.

À medida que as ondas de calor extremo se tornam mais frequentes, intensas e prolongadas devido às alterações climáticas globais, o acesso ao ar condicionado (AC) passou rapidamente de um luxo moderno a uma necessidade premente de sobrevivência e saúde pública.

No entanto, este aumento drástico na procura por refrigeração está a expor e a criar uma nova e profunda fratura social, frequentemente denominada de "fosso do arrefecimento" (cooling divide).

Este fenómeno espelha uma cruel ironia: a tecnologia que nos protege do aquecimento global está, na verdade, a agravar o problema climático e a acentuar de forma severa as desigualdades socioeconómicas em todo o mundo.

O privilégio do frio vs a vulnerabilidade térmica

O paradoxo do ar condicionado assenta na criação de um ciclo vicioso evidente. Por um lado, as populações e os países mais ricos possuem os meios financeiros para instalar sistemas modernos de refrigeração e suportar os elevados custos da fatura elétrica.

Atualmente, os aparelhos de AC e as ventoinhas já consomem cerca de 10% de toda a eletricidade gerada no mundo.
Atualmente, os aparelhos de AC e as ventoinhas já consomem cerca de 10% de toda a eletricidade gerada no mundo.

Conseguem, assim, manter o seu conforto, a saúde e a produtividade laboral. Em contrapartida, as famílias com rendimentos mais baixos encontram-se cada vez mais impossibilitadas de aceder a esta forma de adaptação. Estas populações habitam, regra geral, em edifícios precários, com fraco isolamento térmico e situados em bairros de alta densidade sem árvores, onde predomina o asfalto.

As consequências letais da desigualdade

Esta desigualdade vai muito além do simples desconforto. A incapacidade de aceder a ambientes frescos resulta em consequências dramáticas e letais, gerando um aumento exponencial de golpes de calor, exaustão, agravamento de doenças crónicas (cardiovasculares e respiratórias) e picos de mortalidade prematura entre as camadas mais desprotegidas da sociedade.

Aquecer a rua para arrefecer a casa

A injustiça intensifica-se ainda mais no espaço físico da cidade devido à própria tecnologia do AC: para gerar ar frio no interior, os aparelhos expelem quantidades massivas de ar quente para as ruas.

Nas zonas urbanas, isto contribui diretamente para o efeito de "ilha de calor". O resultado é que os mais abastados estão literalmente a aquecer o ambiente de quem não tem qualquer alternativa.

Além disso, a nível global, o uso massificado do ar condicionado exige uma enorme queima de combustíveis fósseis e liberta gases refrigerantes nocivos, acelerando as alterações climáticas que justificaram o seu uso inicial.

Uma mudança de paradigma: arrefecimento sustentável

Para combater esta perigosa exclusão térmica, os especialistas concluem que a solução não passa por inundar o mundo com mais aparelhos de ar condicionado. É imperativa uma mudança de paradigma rumo ao "arrefecimento passivo": apostar num melhor isolamento de edifícios, numa arquitetura adaptada ao clima e na renaturalização das cidades com mais sombras e espaços verdes.

Só com um forte investimento em políticas públicas de habitação e urbanismo se poderá garantir o direito fundamental a um ambiente seguro, quebrando um ciclo que hoje beneficia alguns à custa da maioria.

Referência da notícia

Hood, Laura. (2026). The cooling divide: how air conditioning is creating a new climate inequality.