Solos de guerra: quando o campo de batalha acaba na cadeia alimentar

A guerra não termina quando os disparos cessam. Explosivos, metais pesados e combustíveis permanecem no solo por décadas, e alguns acabam por se infiltrar (silenciosamente) nas plantações, na água e nos alimentos.

As guerras, além de ceifarem vidas, perturbam a cadeia alimentar devido aos contaminantes no solo.
As guerras, além de ceifarem vidas, perturbam a cadeia alimentar devido aos contaminantes no solo.

Quando pensamos em guerra, geralmente imaginamos destruição visível: milhares de mortos, prédios desabados, estradas arrasadas, cidades destruídas, tanques enferrujados... e tudo isto acaba nos livros de História.

Mas existe outro tipo de devastação que permanece invisível após o fim dos bombardeios, além da óbvia perda de vidas. Esta devastação não aparece nas imagens, e é um inimigo que pode persistir por décadas. Não estamos a falar de política, mas de química: a contaminação do solo. A contaminação do que pisamos e, pior, do que comemos.

Porque um campo de batalha não é apenas uma arena de combate, e o solo não é apenas um pedaço de terra inerte. É um lugar onde explosivos, combustíveis, metais pesados, compostos químicos e restos de munição são libertados. E muitos destes contaminantes não desaparecem quando o conflito termina.

Eles ficam.
No solo.
Durante anos.
Às vezes, por gerações.

E quando este solo for cultivado novamente, não espere que nos devolva frutas e legumes orgânicos 'limpos'.

O que uma guerra deixa no solo

A guerra moderna mobiliza enormes quantidades de materiais industriais e militares. Tanques, munições, explosivos, combustíveis, lubrificantes, veículos destruídos, incêndios em infraestruturas... Tudo isto deixa um rasto químico.

Entre os contaminantes mais comuns em munições modernas está um cocktail de metais pesados que faria inveja a qualquer tabela periódica: chumbo, antimónio, cobre e níquel, originários não apenas da própria munição, mas também de fragmentos de projéteis e destroços de veículos.

Munições, explosivos e combustíveis degradam-se em compostos que permanecem no solo por anos.
Munições, explosivos e combustíveis degradam-se em compostos que permanecem no solo por anos.

E estás tu preocupado com uma lata de atum. O problema é que estes elementos não se degradam. Não desaparecem com o tempo. Permanecem no solo e, através de um processo chamado lixiviação, penetram no substrato e, graças à chuva, acabam em aquíferos ou são absorvidos diretamente pelas raízes das plantas.

Explosivos e combustíveis

Resíduos de explosivos militares também estão presentes. Um dos mais estudados é o TNT (trinitrotolueno), usado há mais de um século. A ciência diz-nos que o TNT é altamente tóxico e potencialmente cancerígeno. Mas o problema nutricional surge quando descobrimos que culturas como alface e trigo são especialistas em absorver estes resíduos.

Estudos em zonas de conflito mostram concentrações de nitrotolueno nas partes comestíveis de vegetais. Imagine o controlo de qualidade desta salada. Alerta de spoiler: ela não passa na inspeção da EFSA (Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar), não chega ao seu prato (mas o mundo não se resume ao seu prato).

A guerra não só contamina o solo, como também o mar.
A guerra não só contamina o solo, como também o mar.

A isto se somam os combustíveis e óleos libertados em incêndios ou na destruição de veículos. Estes derivados de petróleo contêm hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAPs). Estes compostos são bem conhecidos na área de segurança alimentar, pois também aparecem quando se queima uma torrada ou se faz um churrasco, mas numa zona de guerra, a concentração é industrial.

Os HAPs são lipofílicos, ou seja, têm afinidade por gorduras. Se tens um solo contaminado por divisões blindadas e decides plantar girassóis para produzir óleo... bem, o resultado não é exatamente um "superalimento".

Quando o solo volta a ser cultivado

Após um conflito, muitas áreas agrícolas acabam por recuperar. As comunidades regressam, os campos são replantados e a agricultura tenta ser retomada. Mas o solo tem uma memória química.

As plantas podem absorver certos poluentes presentes no solo, especialmente metais pesados. Este processo é chamado de bioacumulação. Nem sempre ocorre, nem em todas as culturas, mas pode acontecer dependendo de diversos fatores, como tipo de solo, pH, espécie vegetal e concentração de poluentes.

Vidas, infraestrutura, edifícios... e alimentos, tudo está contaminado pela guerra.
Vidas, infraestrutura, edifícios... e alimentos, tudo está contaminado pela guerra.

Algumas plantas, como certos vegetais ou grãos, podem acumular metais nas suas raízes, folhas ou grãos.

Isto não significa automaticamente que o alimento seja perigoso, mas indica uma possível via de entrada de metais na cadeia alimentar caso os níveis sejam elevados.

Porque é que isto importa para nós em 2026?

Estamos em março de 2026. Os conflitos na Europa Oriental e no Médio Oriente transformaram milhares de hectares de terras agrícolas em depósitos de resíduos químicos.

A Ucrânia, por exemplo, é (ou era) o "celeiro da Europa". Se o solo estiver contaminado, o mercado global de grãos enfrentará um problema de segurança alimentar a longo prazo que não poderá ser resolvido com um tratado de paz.

A meteorologia desempenha um papel crucial neste contexto. Inundações (cada vez mais extremas devido às alterações climáticas) arrastam estes solos contaminados, transportando sedimentos tóxicos para regiões que nunca estiveram em guerra. A poluição propaga-se pela água, e a água não conhece fronteiras.

Esta não é uma hipótese teórica. Foi documentada em diversas regiões do mundo. Após a Primeira Guerra Mundial, muitas áreas do norte da França e da Bélgica ficaram tão contaminadas por munições, metais e explosivos que, ainda hoje, existem áreas conhecidas como "zonas vermelhas", onde a agricultura permanece restrita mais de um século depois.

O problema invisível

O aspeto mais complexo deste tipo de poluição é que nem sempre é fácil detetá-la. Ao contrário de um derramamento industrial ou de um acidente químico, a poluição em tempos de guerra costuma ser difusa e heterogénea. Podem existir áreas altamente contaminadas ao lado de outras que parecem limpas.

A remediação de solos contaminados é um processo longo e caro... e geralmente ninguém se importa.
A remediação de solos contaminados é um processo longo e caro... e geralmente ninguém se importa.

Além disso, os contaminantes podem migrar lentamente com a água ou o solo, fazendo com que o problema se altere ao longo do tempo.

Portanto, antes de recuperar terras agrícolas após um conflito, os especialistas recomendam avaliações ambientais detalhadas, análises do solo e, em alguns casos, programas de descontaminação.

Existe alguma solução?

A recuperação de solos contaminados pela guerra é lenta e dispendiosa. A fitorremediação (utilizando plantas específicas que "sequestram" metais) é empregada, mas leva décadas para que o solo se torne seguro novamente.

Entretanto, a indústria alimentar precisa de aprimorar os seus processos com controlos de rastreabilidade muito mais rigorosos. Não basta saber de onde vem o trigo; é preciso saber o que foi plantado naquele solo há cinco anos.

A guerra não termina quando acaba

Porque a guerra não deixa cicatrizes apenas em corações, edifícios ou na história. Muitas vezes preocupamo-nos se um tomate contém um pesticida autorizado (que é regulamentado), mas ignoramos que a guerra é o maior contaminante de almas, mentes e alimentos que existe.

A guerra só envenena o futuro e destrói o presente. Precisamos de paz.
A guerra só envenena o futuro e destrói o presente. Precisamos de paz.

O solo leva anos para se regenerar. As decisões tomadas após o conflito — como limpar, como cultivar, como monitorizar — determinarão se esse legado químico desaparece... ou permanece.

A guerra não destrói apenas o presente; ela envenena o futuro. De cada vez que uma bomba explode, prédios desabam, pessoas morrem e a cadeia alimentar é afetada.