Português Alexandre Ramos entre os cientistas que voam para estudar rios atmosféricos: saiba como ajudam a prever chuva

O estudo mais aprofundado de rios atmosféricos ajuda os cientistas, entre os quais o português Alexandre Ramos, a contribuir para um grau mais detalhado da previsão de chuva, algo crucial para o potencial salvamento de vidas.

Os rios atmosféricos aumentam substancialmente a probabilidade de água precipitável no nosso território, pois contêm um elevado teor de vapor de água e são impulsionados por ventos de Oes-Sudoeste até à nossa geografia, acabando por deixar precipitação abundante e eficiente nas zonas do país mais expostas a estes "corredores de humidade".
Os rios atmosféricos aumentam substancialmente a probabilidade de água precipitável no nosso território, pois contêm um elevado teor de vapor de água e são impulsionados por ventos de Oes-Sudoeste até à nossa geografia, acabando por deixar precipitação abundante e eficiente nas zonas do país mais expostas a estes "corredores de humidade".

Os rios atmosféricos que afetam Portugal continental nascem no Atlântico (ou mais além, por exemplo na zona das Caraíbas) e são responsáveis por transportar ar subtropical temperado e muito húmido. Na nossa latitude costumam surgir com maior frequência entre o fim do outono e o início da primavera.

O que é um rio atmosférico?
Os rios atmosféricos são faixas estreitas e alongadas na atmosfera que funcionam como verdadeiros “corredores de transporte de vapor de água”, deslocando grandes quantidades de humidade desde as zonas tropicais até às latitudes médias. Quando interagem com frentes frias ou massas de ar instáveis, podem gerar precipitação intensa e persistente.

Por outras palavras, estes fenómenos podem ser entendidos como “autênticas autoestradas” que distribuem a humidade desde as zonas tropicais ou subtropicais até às latitudes médias e/ou altas da Terra. Estas faixas estreitas e muito compridas abrangem milhares de quilómetros e costumam persistir durante vários dias.

Por conseguinte, a chuva torna-se mais frequente e provável, acabando por gerar acumulações abundantes em diversas zonas da nossa geografia devido ao carácter persistente da precipitação, que se vê ‘alimentada’ ou reforçada por um ou mais rios atmosféricos.

Por estes dias, a distribuição dos centros de ação (anticiclones e depressões), tem permitido que um rio de humidade proveniente da zona das Caraíbas intensifique a chuva em território nacional, sendo a precipitação que caiu na quinta-feira, 29 de janeiro um dos exemplos que melhor ilustra a situação descrita.

Português Alexandre Ramos entre os cientistas que voam para estudar rios atmosféricos

À semelhança dos cientistas da AR Recon que sobrevoam o Pacífico ou dos Caçadores de Furacões da NOAA que se aventuram sobre o Atlântico, o voo realizado na manhã de quarta-feira, 28 de janeiro, a partir de Shannon (Irlanda), pelos cientistas do Karlsruhe Institute of Technology (KIT, Alemanha) e do German Aerospace Center (DLR), consistia em tentar compreender o papel desempenhado pela presença de um rio atmosférico na previsão de precipitação para esta quinta-feira, 29 de janeiro.

De acordo com o website oficial, esta missão científica aérea insere-se na campanha da NAWDIC (North Atlantic Waveguide, Dry Intrusion, and Downstream Impact Campaign), levada a cabo neste voo em particular pelo subprojecto NAWDIC-AR, liderada pelo cientista e investigador português Dr. Alexandre Ramos do KIT.

Voo realizado num avião HALO (pertencente à DLR) que partiu desde Shannon (Irlanda). Os cientistas conseguiram observar as nuvens a alta altitude e posteriormente a massa compacta que é o Rio Atmosférico. Crédito da Imagem © Bastian Kirsch (KIT).
Voo realizado num avião HALO (pertencente à DLR) que partiu desde Shannon (Irlanda). Os cientistas conseguiram observar as nuvens a alta altitude e posteriormente a massa compacta que é o Rio Atmosférico. Crédito da Imagem © Bastian Kirsch (KIT).

O voo teve duas regiões em foco: o rio atmosférico procedente das Caraíbas e que se situava a norte do arquipélago dos Açores e o cruzamento de uma frente fria associada a uma depressão atlântica e alimentada pelo já referido rio atmosférico.

Campanhas científicas que ajudam a salvar vidas, contribuindo para o refinar das condições iniciais de previsão de chuva do modelo

Os mapas concebidos pelo Departamento de Meteorologia da Meteored baseiam-se no modelo ECMWF (Centro Europeu de Previsões a Médio e Longo Prazo), o mesmo modelo que assimila os dados das dropsondas libertadas pelo avião HALO do DLR manejado pelos cientistas. Por isso, é muito importante compreender o porquê destas campanhas científicas ocorrerem.

O objetivo da missão aérea consistia em tentar melhorar a previsão da precipitação que caiu de forma abundante nesta quinta-feira, dia 29, devido à presença do rio atmosférico.

É graças ao trabalho ‘in situ’ destes cientistas que as previsões fornecidas pelos modelos são cada vez mais precisas. As missões aéreas proporcionam dados com um nível de detalhe tão elevado que seria impossível de obter por outros meios em regiões remotas, como sobre os oceanos, contribuindo assim para que os modelos produzam previsões mais fiáveis. Como consequência deste avançado grau de desenvolvimento tecnológico, mais vidas podem ser salvas.

Ao atravessarem a frente fria associada com a depressão atlântica e com o rio atmosférico, os cientistas queriam perceber a heterogeneidade da frente, isto é, as características que a mesma evidenciava, bem como possíveis eventos convectivos daí derivados (precipitação, trovoada, granizo, entre outros).

Para cumprirem com este objetivo, procederam à recolha dos dados emitidos por dropsondas, aparelhos de reconhecimento libertados em alta altitude pelo avião HALO, que fornecem medições detalhadas da atmosfera sobre vários fenómenos meteorológicos distintos, entre os quais os rios atmosféricos.

Esta missão científica aérea insere-se na campanha da NAWDIC (North Atlantic Waveguide, Dry Intrusion, and Downstream Impact Campaign), levada a cabo neste voo em particular pelo subprojecto NAWDIC-AR, liderada pelo cientista e investigador português Dr. Alexandre Ramos (KIT) e o seu principal objetivo consistia em afinar a previsão de chuva do modelo ECMWF para ontem - quinta-feira (29) - tendo em conta a presença do rio atmosférico. Crédito da Imagem © Bastian Kirsch (KIT).
Esta missão científica aérea insere-se na campanha da NAWDIC (North Atlantic Waveguide, Dry Intrusion, and Downstream Impact Campaign), levada a cabo neste voo em particular pelo subprojecto NAWDIC-AR, liderada pelo cientista e investigador português Dr. Alexandre Ramos (KIT) e o seu principal objetivo consistia em afinar a previsão de chuva do modelo ECMWF para ontem - quinta-feira (29) - tendo em conta a presença do rio atmosférico. Crédito da Imagem © Bastian Kirsch (KIT).

O avião HALO partirá, durante toda a campanha da NAWDIC, desde Shannon (Irlanda), local de onde os cientistas voaram na quarta-feira (28) para realizar o estudo do rio atmosférico e afinar as previsões modeladas pelos mapas do ECMWF da chuva que vai, quase de forma incessante, atingindo o nosso país por estes dias. A campanha da NAWDIC iniciou a 13 de janeiro e irá prolongar-se até 20 de fevereiro de 2026.


NOTA
: O investigador Alexandre Ramos (KIT, Alemanha) contribuiu para a revisão deste artigo.

Website da Campanha NAWDIC