Portugal respira cada vez mais poeiras do Sara. A ciência explica agora porquê
Estudo internacional revela que o transporte de poeiras do Norte de África está a intensificar-se e coloca a Península Ibérica entre as regiões europeias mais expostas.

Há dias em que a luz parece diferente, o céu perde a transparência, o horizonte ganha um tom esbranquiçado e uma fina camada de pó cobre automóveis, janelas e varandas. Para muitos portugueses, estas imagens fazem parte da paisagem dos meses mais quentes do ano.
Um estudo publicado na revista Nature, liderado pelo Instituto Paul Scherrer (PSI), na Suíça, e com a participação de investigadores da Universidade de Aveiro, conclui que a concentração de poeiras do deserto do Sara na atmosfera europeia aumentou entre 10% e 25% na última década e mais do que duplicou desde a era pré-industrial.
O primeiro estudo abrangente
Esta é a primeira avaliação pan-europeia baseada exclusivamente em medições observacionais, que permitiu traçar o retrato mais completo de sempre sobre a influência das poeiras minerais do Norte de África na qualidade do ar do continente.

Embora o fenómeno afete grande parte da Europa, é na Península Ibérica que os seus efeitos se fazem sentir com maior intensidade. Portugal surge entre os territórios mais expostos ao transporte de poeiras provenientes do Sara, sobretudo durante os meses de julho e agosto, quando as condições atmosféricas favorecem a chegada destas massas de ar carregadas de partículas.
Portugal na linha da frente
As poeiras do Sara sempre atravessaram o Mediterrâneo e o Atlântico até alcançarem a Europa. A novidade revelada pelo estudo não está na existência dessas intrusões, mas na sua intensidade crescente.
Os investigadores verificaram que o número de episódios registados entre 2012 e 2021 não aumentou de forma significativa. O que mudou foi a quantidade de poeira transportada em cada evento.
Para Portugal, esta tendência assume uma relevância particular. Inserido no setor ocidental do Mediterrâneo, o país encontra-se numa das principais portas de entrada das poeiras africanas na Europa. Os dados mostram que o Sul do continente regista concentrações médias de poeira mineral cerca de duas vezes e meia superiores às observadas na Europa Central e Setentrional.
No caso da Península Ibérica, o período mais crítico coincide com o pico do verão, precisamente quando o tempo seco e as temperaturas elevadas favorecem a persistência destas massas de ar sobre o território.
Picos de concentrações no Sul da Europa
Os investigadores identificaram ainda uma ligação entre determinadas configurações atmosféricas e a intensidade das intrusões na Europa Ocidental. Durante fases positivas da Oscilação do Atlântico Norte, um dos principais padrões que condicionam o estado do tempo no Atlântico, observaram-se concentrações mais elevadas sobre Portugal, Espanha e parte de França.
O resultado é visível muito para além dos automóveis cobertos por uma película alaranjada. A redução da qualidade do ar afeta milhões de pessoas e representa um desafio crescente para setores tão distintos como a saúde pública, a produção de energia solar e a monitorização ambiental.
Uma viagem de milhares de quilómetros
Cada episódio começa muito antes de chegar ao céu português. As poeiras têm origem nas extensas regiões áridas do Norte de África, onde os ventos levantam partículas minerais extremamente finas que permanecem em suspensão durante vários dias. Transportadas pelas correntes atmosféricas, percorrem milhares de quilómetros até atingirem a Península Ibérica e outras regiões europeias.

Para reconstruir esta viagem, a equipa internacional analisou mais de 18.500 medições diárias recolhidas em 103 estações de monitorização distribuídas por toda a Europa. Os dados foram cruzados com imagens de satélite, modelos atmosféricos e ferramentas de inteligência artificial, permitindo distinguir a poeira proveniente do deserto de outras fontes de poluição presentes na atmosfera.
A evolução preservada nos Alpes
O resultado é o retrato mais detalhado alguma vez produzido sobre este fenómeno e confirma que a presença de poeiras do Sara tem vindo a aumentar de forma consistente ao longo dos últimos 250 anos.
Os testemunhos preservados no gelo dos Alpes ajudam igualmente a contar essa história. A análise desses registos mostra que a deposição de poeiras mais do que duplicou desde a era pré-industrial, confirmando que não se trata de uma oscilação temporária, mas de uma tendência que se prolonga há várias gerações.
Por que chegam mais poeiras à Europa?
A resposta começa a milhares de quilómetros da Península Ibérica. O aumento da poeira transportada para a Europa resulta da combinação de dois fatores que se reforçam mutuamente. Por um lado, a desertificação e a aridez intensificaram-se em várias regiões do Norte de África. As alterações nos padrões de circulação atmosférica, por outro lado, favorecem o transporte dessas partículas até ao continente europeu.
À medida que os solos perdem humidade e a vegetação diminui, aumenta também a quantidade de sedimentos disponíveis para serem levantados pelo vento.
O contributo das atividades humanas
Os autores reconhecem as incertezas sobre o peso exato das alterações climáticas neste processo. Ainda assim, o conhecimento científico atual aponta para uma conclusão consistente.
Em poucas palavras, quanto mais seco se torna o Norte de África, maior tende a ser a quantidade de poeira disponível para atravessar o Mediterrâneo e alcançar países como Portugal.
Muito mais do que areia em suspensão
A camada avermelhada que se deposita sobre automóveis, telhados ou varandas é apenas a parte mais visível da viagem iniciada no deserto. As partículas mais finas permanecem em suspensão na atmosfera durante muito mais tempo e conseguem percorrer milhares de quilómetros antes de regressarem ao solo.
O estudo conclui que, durante os episódios de intrusão, a contribuição da poeira mineral representa cerca de um terço do valor médio anual recomendado pela Organização Mundial da Saúde para as partículas inaláveis PM10. Para as partículas mais finas, conhecidas como PM2.5, a contribuição corresponde a cerca de um quarto do valor de referência.
Os grandes impactos na saúde
Embora os efeitos a longo prazo continuem a ser investigados, já existem evidências consistentes sobre as consequências imediatas destes episódios. Os investigadores identificaram um aumento da mortalidade diária, bem como das hospitalizações por doenças respiratórias, sobretudo entre grupos mais vulneráveis, como crianças, adolescentes, idosos e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.

Segundo Petros Vasilakos, primeiro autor do estudo citado no comunicado do PSI, há mais mortes relacionadas com enfartes e problemas respiratórios nos dias de elevadas concentrações de poeiras do que nos restantes dias.
Um desafio que também é económico
As consequências não se sentem apenas na qualidade do ar. A acumulação de poeiras reduz ainda a eficiência dos painéis fotovoltaicos, comprometendo a produção de energia solar precisamente nas regiões do Sul da Europa onde esta fonte renovável assume um peso crescente.
Ao mesmo tempo, dificulta a monitorização da qualidade da atmosfera e aumenta os desafios para a previsão meteorológica e gestão de episódios de poluição.
Ao contrário da poluição emitida pelos automóveis, pela indústria ou pelo aquecimento doméstico, as poeiras do deserto não podem ser controladas com medidas locais. Uma vez levantadas pelos ventos no Norte de África, atravessam fronteiras sem encontrar barreiras.

Isso não significa que nada possa ser feito. Segundo os autores, políticas eficazes de mitigação das alterações climáticas poderão contribuir, a longo prazo, para limitar a expansão das áreas áridas e reduzir o agravamento deste fenómeno nas próximas décadas.
Referência da notícia
Paul Scherrer Insitute (PSI). Desert dust in Europe is increasing.
Petros N. Vasilakos, Abhishek Upadhyay, Manousos I. Manousakas, Andrés Alastuey, James D. Allan, Célia A. Alves, Benjamin Bergmans, et al.. Rising dust pollution across Europe in a changing climate.