Petróleo versus meteorologia: porque é que o futuro da eletricidade na Venezuela depende mais do céu do que do solo
Apesar da fama do petróleo, o verdadeiro poder da Venezuela está nos seus recursos naturais. Com uma matriz elétrica 94% renovável, o país enfrenta o desafio de diversificar a sua matriz para não depender apenas das chuvas.

Ao contrário da geopolítica do petróleo, a energia que move a Venezuela não vem do subsolo, mas do céu e dos seus poderosos rios. O país tem uma das redes elétricas mais “verdes” da América Latina, embora esta bênção seja, ao mesmo tempo, o seu maior calcanhar de Aquiles face às alterações climáticas.
O império da água: Potência vs. Geração Real
O coração do Sistema Elétrico Nacional (SEN) bate no estado de Bolívar, mas há uma diferença fundamental entre o que o país pode produzir e o que realmente consome. A Venezuela tem uma capacidade instalada de energias renováveis que representa aproximadamente 65% - 70% do parque gerador total.
No entanto, em termos de geração real, o quadro muda: em períodos de ótima pluviosidade, a “renovabilidade” da matriz chega a atingir picos de 92-94%, pois o sistema prioriza o despacho de energia hidroelétrica em detrimento da termoelétrica.
Esta dependência assenta na Central Hidroelétrica Simón Bolívar (Guri), com os seus impressionantes 10.235 MW, e nas suas irmãs Macagua (3.120 MW) e Caruachi (2.160 MW). O desafio atual consiste não só em manter esta capacidade instalada no Baixo Caroní, mas também em otimizar as linhas de transporte a oeste, que sofrem a maior vulnerabilidade do sistema.
Sol e vento: os gigantes adormecidos do Norte
Se o sul é água, o norte é puro fogo e ar. A Venezuela tem áreas de classe mundial para a energia eólica e fotovoltaica que estão apenas a começar a despertar:
- Potencial solar: Com níveis de radiação de até 6,5 kWh/m^2 por dia, o noroeste (Zulia, Falcón e Lara) lidera a expansão com cerca de 400 MW instalados no âmbito de planos que visam aliviar a crise em estados críticos e incentivar o autoconsumo industrial.
- Ventos recordes: na Península de Guajira e em Paraguaná, os ventos alísios sopram com velocidades superiores a 9 m/s. Embora o desenvolvimento tenha sido desigual, este recurso continua a ser um dos mais competitivos da região das Caraíbas.

Apesar destas condições, as energias solar e eólica representam menos de 2% das energias renováveis no país. Embora os parques solares e os sistemas de autoconsumo privados tenham sido integrados entre 2025 e o início de 2026, a sua contribuição para o mix nacional continua a ser marginal e ainda não consegue fazer avançar significativamente a percentagem nacional face à hegemonia da água.
Os desafios da previsão: porque é que é tão difícil?
A integração destas energias não se resume à instalação de painéis, o grande desafio é a previsão meteorológica precisa. Como explica Omar Halasa, da Sirocco Energy, o campo da previsão na Venezuela enfrenta obstáculos críticos:
- O efeito de rampa e a estabilidade da rede: uma nuvem sobre um parque solar em Zulia exige uma resposta imediata de uma rede cuja fonte principal (Guri) está a centenas de quilómetros de distância. Sem sistemas de baterias em grande escala, estas quedas súbitas de tensão são difíceis de gerir por um sistema que não está atualmente automatizado para processar variações ao segundo.
- Meteorologia tropical complexa e El Niño: A Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) gera uma nebulosidade errática em que uma breve precipitação pode afetar a produção solar. Para além disso, o El Niño altera drasticamente os padrões de vento e radiação, ao mesmo tempo que reduz os níveis dos reservatórios, obrigando os modelos de previsão a reajustarem-se constantemente face a uma seca que compromete toda a matriz.
- Lacuna tecnológica e de dados em tempo real: existe uma obsolescência na rede de estações que carecem de sensores especializados, como piranómetros ou anemómetros de altura ligados digitalmente. Este facto, aliado à fuga de talentos técnicos em Machine Learning, dificulta a criação de uma plataforma integrada que permita aos operadores de rede antecipar o comportamento meteorológico minuto a minuto.
Um futuro de transição
A Venezuela tem o caminho traçado: o sucesso da sua segurança energética dependerá da forma como conseguir combinar a sua histórica força hidráulica com a intermitência do sol e do vento, transformando os dados meteorológicos no novo combustível do país.