O único “país” do mundo sem território situa-se na Europa e foi fundado há quase 1000 anos

Esta instituição centenária, com origem nas Cruzadas, é considerada única no mundo moderno por exercer a sua soberania (tem embaixadas, passaportes e missões humanitárias em mais de 100 países) sem possuir um único metro quadrado do seu próprio território.

Pormenor do quadro “Guillaume de Clermont defendendo as muralhas no Cerco de Acre, 1291”, pintado por Dominique Papety.
Pormenor do quadro “Guillaume de Clermont defendendo as muralhas no Cerco de Acre, 1291”, pintado por Dominique Papety.

No centro da história europeia e do direito internacional está uma entidade única que desafia muitas das ideias tradicionais sobre o que significa ser um Estado.

Trata-se da Ordem Soberana e Militar de Malta (SMOM), uma organização que existe há quase um milénio; um “país” que, curiosamente, não tem território próprio.

Embora a ideia de um Estado sem fronteiras físicas pareça quase saída de um romance de fantasia, este organismo existe no mundo real e mantém uma presença ativa em mais de uma centena de países.

Origens medievais: Hospitalários e cavaleiros

A história da Ordem remonta às Cruzadas do século XI. Fundada por volta de 1099 em Jerusalém por Gerardo Sasso - conhecido como Beato Gerardo - nasceu com o objetivo de oferecer cuidados médicos e abrigo aos peregrinos cristãos que viajavam para a Terra Santa.

Em 1113, recebeu o reconhecimento formal do Papa, marcando o início do seu estatuto de ordem religiosa com prerrogativas legais especiais no seio da Cristandade na Idade Média.

Ao longo dos séculos seguintes, a Ordem evoluiu de uma simples instituição hospitaleira para uma força militar e diplomática respeitada. Governou territórios reais: primeiro na ilha de Rodes e mais tarde - de 1530 a 1798 - na ilha de Malta, aceite como território pelo imperador Carlos V com a aprovação papal. Foi aí que foi estabelecido o seu nome oficial atual: Ordem Soberana Militar e Hospitaleira de São João de Jerusalém, Rodes e Malta.

A perda do território físico

A história da ordem sofreu uma viragem dramática com a chegada de Napoleão Bonaparte em 1798. As forças francesas ocuparam Malta e expulsaram os cavaleiros, deixando-os sem posse territorial.

A bandeira da Ordem Soberana e Militar de Malta (vermelha com a cruz latina branca) flutua ao lado de outras bandeiras num edifício histórico.
A bandeira da Ordem Soberana e Militar de Malta (vermelha com a cruz latina branca) flutua ao lado de outras bandeiras num edifício histórico.

Depois de um período de incerteza e de deambulação pela Europa, a Ordem instalou-se em Roma em 1834. Desde então, embora mantenha na capital italiana dois edifícios com estatuto extraterritorial (não sujeitos à jurisdição local), nunca mais recuperou um território soberano.

Esta situação significa que - em rigor - não existe um território definido sob o seu controlo, o que rompe com a ideia clássica de um Estado baseado em fronteiras físicas. Apesar disso, a Ordem continua a ser um sujeito de direito internacional.

Soberania internacional sem fronteiras

Embora não possua território próprio, a Ordem de Malta mantém muitas das características normalmente associadas aos Estados soberanos:

Desde 13 de junho de 2022, o advogado canadiano John Timothy Dunlap é o Grão-Mestre e chefe da Soberana Ordem Militar de Malta.
Desde 13 de junho de 2022, o advogado canadiano John Timothy Dunlap é o Grão-Mestre e chefe da Soberana Ordem Militar de Malta.
  • Mantém relações diplomáticas formais com mais de uma centena de países, bem como com a União Europeia.
  • Tem o estatuto de observador permanente nas Nações Unidas, à semelhança de outros Estados não membros.
  • Pode emitir documentos oficiais, como passaportes, selos postais e até matrículas para alguns veículos diplomáticos.
  • Tem o seu próprio governo, chefiado por um Príncipe e Grão-Mestre, com uma estrutura política e jurídica independente.

No entanto, o seu estatuto é tão singular que até os especialistas em direito internacional debatem se deve ser definido como um “Estado” no sentido tradicional. Enquanto algumas nações reconhecem explicitamente a sua soberania, outras tratam-na mais como uma instituição com prerrogativas especiais.

Uma missão centrada na ajuda humanitária

Para além das formalidades políticas e jurídicas, o que realmente define a Ordem de Malta hoje em dia é o seu trabalho humanitário global.

Presente em mais de 130 países, coordena programas de assistência médica, social e de emergência, nomeadamente em zonas de conflito e de catástrofe. O seu espírito, inscrito no lema Tuitio Fidei et Obsequium Pauperum (“defesa da fé e serviço aos pobres”), continua a orientar a sua ação.

Milhares de voluntários e parceiros profissionais apoiam este trabalho, que vai desde os cuidados básicos de saúde à mediação de conflitos e à assistência aos refugiados. Embora não esteja sediada em solo nacional, o seu alcance faz-se sentir em comunidades de todo o mundo.