Expansão de aeroportos e inação: a contradição da mobilidade espanhola
O fim dos voos domésticos curtos: uma necessidade ambiental travada pela inação. Saiba mais aqui!

O tráfego aéreo em Espanha atingiu máximos históricos, impulsionado sobretudo pelo pico do turismo no verão. De acordo com a Enaire, a gestora estatal de navegação aérea, registou-se um recorde absoluto de 257.909 operações num único mês, o que equivale ao movimento de uma aeronave a cada 12 segundos.
Em 2025, o aeroporto de Málaga registou uma operação a cada três minutos durante as 24 horas do dia, Valência assistiu a uma descolagem ou aterragem a cada seis minutos e, nas áreas metropolitanas de Madrid e Barcelona, o ruído dos aviões sobrevoa a população a cada minuto ou minuto e meio.

Esta intensidade agrava significativamente a pressão turística e intensifica os impactos ambientais, desde a poluição sonora e atmosférica à emissão de gases com efeito de estufa.
Os benefícios reais da alternativa ferroviária
Diante deste cenário, surge a urgência de substituir trajetos de curta distância por alternativas ferroviárias já existentes, seguras e eficientes.
Um estudo da organização Ecologistas en Acción demonstra que a eliminação dos voos curtos com uma alternativa em comboio de até quatro horas pouparia, anualmente, cerca de 50.000 operações aéreas e mais de 300.000 toneladas de CO₂, valor equivalente a quase 10% de todas as emissões da aviação doméstica espanhola.

Além da redução direta de emissões, esta transição permitiria economizar cerca de 50 milhões de euros por ano em custos indiretos associados a acidentes, ruído e degradação ambiental. Do ponto de vista dos passageiros, o comboio garante tempos totais de viagem frequentemente inferiores aos do avião, somando ainda maior conforto e produtividade.
Inação política e contradições no fomento da aviação
Apesar de a medida contar com um amplo apoio político e social, comprovado pelo facto de a quota de mercado do comboio ultrapassar os 80% nos corredores onde compete diretamente com o avião, a resposta do Executivo espanhol tem sido marcada pela inação.

Embora a intenção de eliminar voos curtos tenha sido anunciada no plano España 2050, reafirmada no acordo de coligação entre o PSOE e o Sumar, e integrada na Ley de Movilidad Sostenible em vigor desde dezembro de 2025, pouco ou nada se concretizou.
Em sentido oposto, assiste-se à tramitação do novo Documento de Regulação Aeroportuária (DORA 2027-2031), que prevê um investimento de 13.000 milhões de euros na expansão da capacidade de uma dúzia de aeroportos.
Este plano visa continuar a fomentar o turismo de massas, ameaçando intensificar ainda mais as consequências ambientais e sociais num momento em que a transição para modelos de mobilidade de baixo impacto é uma obrigação inadiável.
Referência da notícia
Pablo Muñoz e Luisa Castillo. (2026). Poner límites al transporte aéreo y la turistificación: empecemos por los vuelos cortos.