Do exercício à cultura, médicos de família de Valongo, Porto e Maia passam a prescrever saúde fora do consultório

A abordagem articula cuidados clínicos e recursos locais, como o exercício físico e as atividades culturais e de convívio social, reforçando a prevenção, o bem-estar e a participação na vida da comunidade.

Além de medicamentos, os médicos de família da ULS podem encaminhar pacientes para atividades que promovam o bem-estar mental, físico e social. Foto: Zachtleven/Pixabay
Além de medicamentos, os médicos de família da ULS podem encaminhar pacientes para atividades que promovam o bem-estar mental, físico e social. Foto: Zachtleven/Pixabay

Há idas ao médico em que a consulta não termina com a prescrição de uma receita ou de um exame. Pode passar também por fazer exercício, sair de casa com mais frequência, aprender a cozinhar ou retomar o contacto com outras pessoas.

A partir de outubro, essas respostas poderão deixar de ser apenas recomendações feitas durante uma consulta. Na Unidade Local de Saúde (ULS) São João, médicos de família poderão encaminhar os utentes para atividades disponíveis na comunidade através de um novo projeto-piloto de prescrição comunitária.

A iniciativa arranca a 1 de outubro em três Unidades de Saúde Familiar, em Valongo, no Porto e na Maia. Numa primeira fase, abrangerá dez áreas de intervenção, incluindo atividade física, alimentação saudável, cultura, saúde mental, integração na comunidade, prevenção do isolamento social e do declínio cognitivo. A proposta dirige-se a adultos com patologias estabilizadas para os quais uma intervenção comunitária possa complementar o acompanhamento clínico.

Uma receita que não é aviada na farmácia

A diferença está menos na atividade escolhida do que na forma como ela passa a ser integrada nos cuidados. Um médico pode entender que determinado utente beneficiaria de exercício físico e encaminhá-lo para uma modalidade adequada. Outro poderá precisar recuperar rotinas sociais ou encontrar uma atividade que ajude a combater o isolamento.

Em vez de ficar apenas na recomendação, o processo passa para uma equipa dedicada, que apresenta opções existentes na comunidade. A prescrição fica registada numa plataforma informática integrada no processo clínico, permitindo acompanhar e avaliar a intervenção e o seu impacto. A ULS São João pretende, assim, criar um percurso semelhante ao de outros atos prescritivos, mas aplicado a respostas não farmacológicas.

O piloto na região do Porto inclui uma equipa de especialistas que encaminha o utente para uma atividade disponível na sua área de residência. Foto: Ayajiw/Pixabay
O piloto na região do Porto inclui uma equipa de especialistas que encaminha o utente para uma atividade disponível na sua área de residência. Foto: Ayajiw/Pixabay

A mudança assenta na ideia de que a saúde não acontece apenas dentro de uma unidade de cuidados. As relações sociais, os hábitos de vida, a atividade física, o acesso à cultura e as condições do território também influenciam o bem-estar.

É precisamente essa ligação entre cuidados de saúde e recursos locais que a prescrição social procura desenvolver. A Organização Mundial da Saúde descreve-a como uma forma de encaminhar pessoas para atividades e apoios comunitários capazes de responder a necessidades sociais, emocionais e práticas que afetam a saúde.

Portugal já está a experimentar

A experiência da ULS São João surge num momento em que esta abordagem está a ganhar escala. A Escola Nacional de Saúde Pública lançou, em 2024, a rede Prescrição Social Portugal e o primeiro manual dedicado ao tema.

A ENSP NOVA indica que já existem mais de uma dezena de iniciativas no país, envolvendo mais de 100 parceiros e mais de 1500 pessoas referenciadas.

Em Lisboa, a prescrição social é desenvolvida desde 2018 em unidades de saúde familiar e tem sido acompanhada pela academia. Também em Cascais foi lançado um projeto-piloto em parceria com a ENSP NOVA, com foco na integração entre respostas de saúde e sociais.

A cultura é outra das portas que começam a abrir-se. Na Universidade do Porto, um projeto-piloto desenvolvido na Faculdade de Medicina está a avaliar o impacto da participação em atividades culturais na saúde mental e no bem-estar dos estudantes.

Do Reino Unido ao resto da Europa

A ideia já tem uma história mais longa noutros países. O Reino Unido foi pioneiro na integração da prescrição social no sistema nacional de saúde. Os chamados workers recebem os encaminhamentos dos profissionais de saúde e ajudam cada utente a encontrar respostas na comunidade, desde grupos de caminhada até atividades artísticas.

A abordagem está igualmente a ganhar espaço noutras partes da Europa. O projeto europeu Culture on Prescription reuniu organizações de Portugal, Alemanha, Irlanda, Bélgica, Países Baixos e Roménia para testar respostas culturais dirigidas sobretudo a pessoas em situação de isolamento e solidão.

A própria Organização Mundial da Saúde assinala um crescimento rápido deste tipo de iniciativas na Europa. Em março de 2026, a organização destacou vários exemplos que articulam as unidades de saúde às iniciativas como caminhadas, voluntariado, programas artísticos e outros recursos comunitários.
Aulas de ginástica, cursos de culinária ou voluntariado são algumas atividades que passaram a fazer parte das prescrições médicas. Foto: ua_Bob_Dmyt_ua/Pixabay
Aulas de ginástica, cursos de culinária ou voluntariado são algumas atividades que passaram a fazer parte das prescrições médicas. Foto: ua_Bob_Dmyt_ua/Pixabay

Os projetos europeus ou nacionais, como o da ULS São João, não pretendem substituir medicamentos, consultas ou tratamentos clínicos. O intuito é, acima de tudo, acrescentar outras possibilidades, escolhidas de acordo com as necessidades de cada utente e com o que existe à sua volta. É nessa resposta, articulada entre centros de saúde, autarquias e ofertas comunitárias, que a prescrição comunitária começa agora a ganhar forma.

Referências da notícia

Portal de Notícias da ULS São João. ULS São João e Municípios da Maia, Porto e Valongo assinalam o início do Projeto-Piloto de Prescrição Comunitária.
SPLS. Prescrição Social — SPLS e Parceiros avançam em passos firmes.
Euronews. Natureza, arte e desporto podem curar? Por dentro do crescente movimento europeu de prescrição social.