Do exercício à cultura, médicos de família de Valongo, Porto e Maia passam a prescrever saúde fora do consultório
A abordagem articula cuidados clínicos e recursos locais, como o exercício físico e as atividades culturais e de convívio social, reforçando a prevenção, o bem-estar e a participação na vida da comunidade.

Há idas ao médico em que a consulta não termina com a prescrição de uma receita ou de um exame. Pode passar também por fazer exercício, sair de casa com mais frequência, aprender a cozinhar ou retomar o contacto com outras pessoas.
A iniciativa arranca a 1 de outubro em três Unidades de Saúde Familiar, em Valongo, no Porto e na Maia. Numa primeira fase, abrangerá dez áreas de intervenção, incluindo atividade física, alimentação saudável, cultura, saúde mental, integração na comunidade, prevenção do isolamento social e do declínio cognitivo. A proposta dirige-se a adultos com patologias estabilizadas para os quais uma intervenção comunitária possa complementar o acompanhamento clínico.
Uma receita que não é aviada na farmácia
A diferença está menos na atividade escolhida do que na forma como ela passa a ser integrada nos cuidados. Um médico pode entender que determinado utente beneficiaria de exercício físico e encaminhá-lo para uma modalidade adequada. Outro poderá precisar recuperar rotinas sociais ou encontrar uma atividade que ajude a combater o isolamento.
Em vez de ficar apenas na recomendação, o processo passa para uma equipa dedicada, que apresenta opções existentes na comunidade. A prescrição fica registada numa plataforma informática integrada no processo clínico, permitindo acompanhar e avaliar a intervenção e o seu impacto. A ULS São João pretende, assim, criar um percurso semelhante ao de outros atos prescritivos, mas aplicado a respostas não farmacológicas.

A mudança assenta na ideia de que a saúde não acontece apenas dentro de uma unidade de cuidados. As relações sociais, os hábitos de vida, a atividade física, o acesso à cultura e as condições do território também influenciam o bem-estar.
É precisamente essa ligação entre cuidados de saúde e recursos locais que a prescrição social procura desenvolver. A Organização Mundial da Saúde descreve-a como uma forma de encaminhar pessoas para atividades e apoios comunitários capazes de responder a necessidades sociais, emocionais e práticas que afetam a saúde.
Portugal já está a experimentar
A experiência da ULS São João surge num momento em que esta abordagem está a ganhar escala. A Escola Nacional de Saúde Pública lançou, em 2024, a rede Prescrição Social Portugal e o primeiro manual dedicado ao tema.
Em Lisboa, a prescrição social é desenvolvida desde 2018 em unidades de saúde familiar e tem sido acompanhada pela academia. Também em Cascais foi lançado um projeto-piloto em parceria com a ENSP NOVA, com foco na integração entre respostas de saúde e sociais.
A cultura é outra das portas que começam a abrir-se. Na Universidade do Porto, um projeto-piloto desenvolvido na Faculdade de Medicina está a avaliar o impacto da participação em atividades culturais na saúde mental e no bem-estar dos estudantes.
Do Reino Unido ao resto da Europa
A ideia já tem uma história mais longa noutros países. O Reino Unido foi pioneiro na integração da prescrição social no sistema nacional de saúde. Os chamados workers recebem os encaminhamentos dos profissionais de saúde e ajudam cada utente a encontrar respostas na comunidade, desde grupos de caminhada até atividades artísticas.
A própria Organização Mundial da Saúde assinala um crescimento rápido deste tipo de iniciativas na Europa. Em março de 2026, a organização destacou vários exemplos que articulam as unidades de saúde às iniciativas como caminhadas, voluntariado, programas artísticos e outros recursos comunitários.

Os projetos europeus ou nacionais, como o da ULS São João, não pretendem substituir medicamentos, consultas ou tratamentos clínicos. O intuito é, acima de tudo, acrescentar outras possibilidades, escolhidas de acordo com as necessidades de cada utente e com o que existe à sua volta. É nessa resposta, articulada entre centros de saúde, autarquias e ofertas comunitárias, que a prescrição comunitária começa agora a ganhar forma.
Referências da notícia
Portal de Notícias da ULS São João. ULS São João e Municípios da Maia, Porto e Valongo assinalam o início do Projeto-Piloto de Prescrição Comunitária.
SPLS. Prescrição Social — SPLS e Parceiros avançam em passos firmes.
Euronews. Natureza, arte e desporto podem curar? Por dentro do crescente movimento europeu de prescrição social.