Esta calçada portuguesa é única no país. Agora vai ser protegida
Nem todas as relíquias estão em museus. Esta fica no chão de uma praça de Lisboa por onde passam milhares de pessoas todos os dias.
Há pedaços de Lisboa que muitos pisam todos os dias sem imaginar que são únicos. A calçada portuguesa da Praça de São Paulo, na freguesia da Misericórdia, é um deles. A novidade é que está agora mais perto de ganhar um estatuto de proteção nacional.
Porquê? Porque a Património Cultural, I.P. abriu um procedimento de classificação do chamado Tapete de Pedra em Calçada Portuguesa. A proposta foi apresentada pela Associação da Calçada Portuguesa, que também integra a candidatura desta arte tradicional a Património Mundial da UNESCO.
É caso para dizer que olhar para o chão nem sempre é mau sinal. Na Praça de São Paulo, aliás, basta baixar os olhos para descobrir uma das mais antigas e valiosas calçadas portuguesas do país.
Um pavimento com quase dois séculos de história
À primeira vista, pode parecer apenas mais um belo pavimento lisboeta. Mas basta olhar com atenção para perceber que ali existe um verdadeiro testemunho da história da cidade.
O tapete de pedra da Praça de São Paulo foi construído em 1850, numa fase de profunda transformação urbana que se seguiu ao terramoto de 1755. Na altura, a praça tornou-se o terceiro grande espaço público de Lisboa a receber um grande empedrado artístico em calcário branco e basalto negro, uma solução que viria a tornar-se um dos maiores símbolos do país.
Ainda assim, o que torna este local ainda mais especial é o facto de conservar, até hoje, o desenho original.

É verdade. Embora não se conheça o autor do padrão, especialistas consideram que esta é a mais antiga calçada artística portuguesa preservada no seu estado inicial, um raro exemplo de continuidade patrimonial que atravessou quase dois séculos de história sem perder a sua identidade.
No centro da praça destaca-se também o Chafariz de São Paulo, uma obra do século XIX que foi alvo de uma profunda intervenção de restauro em 2019. A recuperação devolveu o funcionamento da estrutura hidráulica e valorizou um dos elementos arquitetónicos mais emblemáticos deste espaço, reforçando o seu interesse histórico e cultural.
A abertura do procedimento de classificação não significa, contudo, que o processo esteja concluído. Representa, sim, um passo importante para o reconhecimento oficial deste património.
“A medida foi conhecida esta quarta-feira, 22 de julho, em que se assinalou pela primeira vez o Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa”, nota a revista ‘Time Out’.
Um património que precisa de ser preservado
A notícia surge numa altura em que cresce a preocupação com o futuro da calçada portuguesa. Apesar de continuar a ser uma das imagens de marca de Lisboa e de muitas outras cidades do país, a manutenção deste património enfrenta dificuldades devido à escassez de calceteiros, uma profissão cada vez menos procurada pelas novas gerações.
"Nos anos de 1940, Lisboa tinha 400 calceteiros nos seus quadros, e atualmente tem 18. Se temos falta de profissionais, é inevitável que haja problemas na conservação da calçada", afirmou o presidente António Prôa à agência Lusa, citado pela ‘Time Out’.
Recorde-se que Portugal começou, desde 22 de julho deste ano, a assinalar o Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa.
Portugal reforçou, assim, a importância da calçada enquanto património vivo. Um que não pertence apenas ao passado, mas que continua a moldar o espaço público e a experiência urbana contemporânea.
Referência da notícia
Junta de Freguesia Misericórdia. (2026). Calçada da Praça de S. Paulo será classificada.
Time Out, Barbedo, R. (2026). Calçada portuguesa da Praça de São Paulo vai ser classificada.