Um físico chileno consegue controlar a luz de novas formas e abre a porta a tecnologias mais eficientes

Computadores que funcionam com luz em vez de eletricidade, ou painéis solares que funcionam com a capacidade máxima mesmo que os seus materiais não sejam perfeitos, são alguns dos avanços que poderiam ser feitos controlando a luz sem a necessidade de paredes.

Um investigador da Universidade do Chile estuda a forma de controlar as ondas de luz e a eletricidade em materiais artificiais.
Um investigador da Universidade do Chile estuda a forma de controlar as ondas de luz e a eletricidade em materiais artificiais.

No mundo da física existe a chamada dinâmica “não-linear”, que estuda sistemas onde as regras convencionais são quebradas e, portanto, o comportamento não é proporcional à causa. Nesses sistemas complexos, muitas vezes caóticos e imprevisíveis, uma pequena mudança não gera um resultado previsível, mas muitas possibilidades.

Neste cenário, o físico Mario Molina Gálvez, académico do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade do Chile, concluiu uma investigação que demonstra que, em condições específicas, a luz e a energia apresentam comportamentos surpreendentes.

Ao conseguir domar este caos e ao “controlar” de alguma forma a luz, o investigador abriu a porta a formas de controlo que antes pareciam impossíveis, uma descoberta que promete revolucionar tudo, desde a Internet de alta velocidade à eficiência das energias renováveis.

Revolução em três pilares da tecnologia

A investigação de Molina não se fica pela teoria, mas propõe uma mudança de paradigma na forma como interagimos com as leis fundamentais do universo, que se poderá traduzir em avanços concretos nas telecomunicações, na informática e na energia solar.

As descobertas de Molina poderão ser a chave para computadores ópticos e painéis solares mais eficientes, entre outras tecnologias.
As descobertas de Molina poderão ser a chave para computadores ópticos e painéis solares mais eficientes, entre outras tecnologias.

Filtros elétricos ultra-precisos

Molina demonstrou que é possível criar “ilhas de energia” onde a energia, em vez de se dispersar, fica confinada a um único ponto. O investigador concebeu redes onde as ondas “colidem” de tal forma que se anulam no exterior, mas são reforçadas num centro comum. Desta forma, a energia fica retida pela sua própria dinâmica, sem necessidade de barreiras físicas.

Ao garantir que a energia não se dispersa e fica confinada em “ilhas” sem necessidade de barreiras físicas, abre-se a porta para a criação de filtros elétricos de altíssima precisão.

Segundo Molina, estes filtros funcionariam bloqueando ou permitindo a passagem de ondas de energia específicas, bastando para isso ajustar o espaçamento entre os componentes da rede elétrica.

Este princípio ajudaria a desenvolver sensores ópticos de alta precisão, que podem ser usados em telecomunicações e redes de última geração, por exemplo. Filtros ultra-precisos permitiriam a um telemóvel ou a uma antena captar exatamente a frequência de dados de que necessitam, bloqueando todos os outros “ruídos”.

Computadores ópticos

    Na mecânica quântica convencional, para que um físico possa medir energia num laboratório, as equações devem possuir uma propriedade matemática chamada hermeticidade.

    Durante quase um século, pensou-se que esta era uma condição obrigatória para garantir que as energias eram reais e estáveis, mas Molina, que trabalha com sistemas que perdem e ganham energia simultaneamente e são muitas vezes muito instáveis, conseguiu equilibrar essas perdas e ganhos usando a Simetria PT (Paridade e Inversão Temporal).

    “O objetivo é controlar o transporte da luz para lançar as bases dos computadores ópticos, capazes de processar informação milhares de vezes mais depressa do que os computadores atuais”, afirmou em comunicado.

    Ao controlar a forma como a luz viaja através das redes microscópicas, mantendo este equilíbrio, estão lançadas as bases para a futura criação de computadores ópticos.

    Painéis solares e lasers avançados

    Normalmente, a desordem é inimiga da eficiência, por isso, se um material tiver imperfeições, a energia fica “presa” e não flui. Mas Molina descobriu que a energia pode encontrar “caminhos escondidos” para fluir dentro de sistemas desordenados.

    Isto poderá revolucionar a área das energias renováveis, otimizando o desempenho dos painéis fotovoltaicos e dos lasers de última geração, fazendo-os funcionar de forma muito mais eficiente, mesmo que os materiais de que são feitos não sejam estruturalmente perfeitos.

    A importância destas descobertas

    A investigação de Molina insere-se naquilo a que se chama ciência básica, porque o seu principal objetivo é decifrar as leis fundamentais que regem o universo, antes de pensar num produto comercial específico. No entanto, este tipo de descobertas são fundamentais, porque estão na base de todas as grandes inovações.

    Possíveis aplicações das descobertas de Mario Molina. Imagem: Física UChile - Instagram @dfc_uchile
    Possíveis aplicações das descobertas de Mario Molina. Imagem: Física UChile - Instagram @dfc_uchile

    Historicamente, não poderíamos ter smartphones sem compreender a mecânica quântica, nem GPS sem a teoria da relatividade. As descobertas de Molina são, por isso, uma espécie de manual de instruções para a tecnologia que está para vir: desde uma Internet com menor latência até dispositivos de energia limpa muito mais robustos.

    Referências da notícia

    Nota de prensa, Facultad de Ciencias, Universidad de Chile. El Dr. Mario Molina avanza en técnicas de control de la luz para nuevas aplicaciones tecnológicas.

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