Factos, notícias 'fake' e desinformação: tudo o que precisa de saber sobre o “Super El Niño”

Existe mesmo um “Super” El Niño? A origem dele foi um terramoto no Japão? O ONI alcançou 3,1 °C na semana passada? E os modelos, "projetam" ou “preveem” uma intensificação do fenómeno até ao inverno? Vamos desvendar os termos que têm vindo a causar confusão - até mesmo entre os profissionais.

Na ciência, alguns termos são reservados para conceitos específicos e, embora possam estar relacionados, não significam a mesma coisa. Na imagem, a anomalia de TSM do dia 29 de setembro de 2026. Créditos: NOAA Coral Reef.
Na ciência, alguns termos são reservados para conceitos específicos e, embora possam estar relacionados, não significam a mesma coisa. Na imagem, a anomalia de TSM do dia 29 de setembro de 2026. Créditos: NOAA Coral Reef.

Desde meados de abril de 2026 o assunto do “Super El Niño” tomou conta dos media e das redes sociais. Nessa altura, os modelos climáticos começaram a indicar o desenvolvimento de um fenómeno muito forte, com possibilidade de se tornar o evento mais intenso da história dos registos.

Porém, juntamente com a popularização do “Super El Niño”, também crescem as fake news (notícias falsas) e a desinformação que, embora não seja exatamente uma informação falsa, ela chega à população de forma muito distorcida e sem rigor científico.

Sabia que o termo “Super” El Niño não existe na ciência? Que um terramoto no Japão não é capaz de gerar o aquecimento que estamos a observar no Oceano Pacífico? E, afinal, qual é a real intensidade atual do fenómeno, existe um ONI semanal? A seguir, tudo o que precisa de saber para combater a desinformação.

O Super El Niño não existe?

Não, cientificamente não existe uma categoria de “super” El Niño. O fenómeno El Niño é classificado de acordo com as anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) na região de monitorização denominada Niño 3.4, no Oceano Pacífico equatorial central:

  • Fraco: +0,5 °C ≤ anomalia trimestral < +1,0 °C
  • Moderado: +1,0 °C ≤ anomalia trimestral < +1,5 °C
  • Forte: +1,5 °C ≤ anomalia trimestral < +2,0 °C
  • Muito forte: anomalia trimestral ≥ +2,0 °C

Ou seja, o que tem vindo a ser convencionado como “Super El Niño” é, na verdade, um evento “muito forte”. A mesma classificação vale para La Niña, mas com os limiares negativos.

O El Niño foi causado por um terramoto no Japão?

Não, o El Niño-Oscilação Sul (ENSO) é um fenómeno natural de variabilidade climática e cíclico que resulta da interação entre o oceano e a atmosfera no Pacífico tropical. Apresenta diferentes fases que se intercalam, sendo o El Niño a fase quente, a La Niña a fase fria e uma condição neutra.

Representação esquemática das fases El Niño e La Niña, onde laranja representa aquecimento, azul arrefecimento, as nuvens indicam maior convecção e as setas onde o ar desce, desfavorecendo nuvens e chuva. Créditos: NOAA.
Representação esquemática das fases El Niño e La Niña, onde laranja representa aquecimento, azul arrefecimento, as nuvens indicam maior convecção e as setas onde o ar desce, desfavorecendo nuvens e chuva. Créditos: NOAA.

A sua evolução envolve mudanças nos ventos alísios, na circulação atmosférica, na temperatura da superfície do mar e na distribuição do calor armazenado no oceano.

Portanto, o aquecimento observado em 2026 na região do Pacífico central não está relacionado com um terramoto ocorrido no Japão em abril de 2026, ao contrário do que circula em algumas reportagens.

Terramotos submarinos podem provocar perturbações importantes no oceano, como tsunamis, por exemplo, mas não são o mecanismo responsável pela formação de um evento de El Niño. Os modelos já indicavam um cenário de El Niño antes mesmo do terramoto.

Qual a diferença entre "previsão" e "projeção"?

Os termos “previsão” e “projeção” não são sinónimos em meteorologia. Na ciência, alguns termos estão reservados para um conceito específico e, neste caso:

  • Previsão: é uma estimativa das condições meteorológicas futuras baseadas no estado atual do sistema e na sua evolução esperada
  • Projeção: é uma estimativa condicionada a determinados cenários futuros, como diferentes trajetórias de emissões e concentrações de gases com efeito de estufa - como nas simulações do clima para o final do século, reportadas pelo IPCC.

Portanto, quando falamos sobre a evolução do El Niño estamos a falar de previsões, e não de projeções.

E o “ONI da semana passada”?

Outra confusão que tem vindo a ganhar espaço em muitos sites é sobre a intensidade do El Niño. Até fevereiro de 2026, o índice o ONI (Oceanic Niño Index) era amplamente utilizado para classificar o ENOS, mas ele foi substituído pelo índice relativo RONI (Relative Oceanic Niño Index).

Diferença entre os índices ONI e RONI, utilizados pela NOAA, que realçam a alteração na classificação dos eventos El Niño e La Niña na última década. Créditos: Meteored/NOAA.
Diferença entre os índices ONI e RONI, utilizados pela NOAA, que realçam a alteração na classificação dos eventos El Niño e La Niña na última década. Créditos: Meteored/NOAA.

Enquanto o ONI utiliza as anomalias absolutas (diferença entre a TSM média na região e na sua climatologia) o RONI utiliza anomalias relativas, ou seja, além da diferença em relação à climatologia, ele também desconta o aquecimento médio dos oceanos tropicais, procurando isolar o sinal do El Niño do aquecimento global de fundo.

Tanto o ONI quanto o RONI representam uma média de 3 meses de anomalias de TSM na região Niño 3.4.

Recentemente, muitos portais têm vindo a associar anomalias absolutas de TSM com o ONI em afirmações como “o ONI alcançou 3,1 °C na última semana”. Este tipo de afirmação não faz sentido cientificamente, uma vez que o ONI é uma média de três meses, e não semanal. O que alcançou 3,1 °C na última semana foi a anomalia absoluta de TSM, e não o ONI. O último ONI (junho-julho-agosto) foi de 1,8 °C, e será atualizado em breve (julho-agosto-setembro).

Esta diferença importa, especialmente quando queremos caracterizar a intensidade de um El Niño e compará-lo com eventos históricos. Embora seja interessante acompanhar a evolução do ENSO “em tempo real” (anomalias diárias ou semanais), mas a intensidade final do fenómeno é dada pela média móvel de 3 meses (RONI ou ONI).

A importância de combater a desinformação

O Relatório de Riscos Globais 2026, elaborado pelo Fórum Económico Mundial, aponta a desinformação e a disseminação de notícias falsas entre os 4 principais riscos globais dos próximos 10 anos.

Combater a desinformação não significa apenas identificar o que é falso. Significa também impedir que uma informação verdadeira seja transformada em algo que ela não é. E, na ciência, isso começa por uma coisa aparentemente simples: usar cada termo para aquilo que ele realmente significa.

Ter acesso a informações científicas de qualidade é fundamental para que a população compreenda os riscos associados aos fenómenos meteorológicos e à crise climática, participe de forma consciente nas discussões e possa cobrar dos seus governantes medidas efetivas para enfrentá-la. Para tal, a ciência precisa de ser não apenas comunicada com clareza, mas também com rigor.